Edgar Alan Poe, o mestre do fantástico

edgar_allan_poeComemoram-se em 2009 os 200 anos do nascimento do escritor americano Edgar Alan Poe, considerado um dos percursores da literatura fantástica.

Por todo o mundo são várias as iniciativas que assinalam esta data e Portugal não é excepção. Nos útlimos meses surgiram no mercado várias reedições das obras de Poe, foram publicados livros que se debruçam sobre a sua vida e obra e organizadas conferências sobre esta temática.

O universo fantástico que Poe explora, gótico e lúgrebe, é o que me faz gostar dos seus livros que, pese embora a carga de ficção que encerram, não pecam por aquele exagero, tão comum em algumas obras do género, que em vez de nos assustar nos parte a rir.

Deixo-vos um excerto do meu texto preferido de Poe, O Corvo, The Raven no original, aqui traduzido por, imagine-se, Fernando Pessoa. Aconselho-vos, no entanto, a procurar por aí a versão original em inglês, para que possam apreciar, em todo o seu esplendor, a genialidade deste poema do escritor americano que morreu, com 40 anos , num hospital de Baltimore, depois de ter sido encontrado nas ruas com roupas que não eram suas e em delirium tremens. As suas últimas palavras foram, ao que parece, It’s all over now: write Eddy is no more.

O CORVO

de Edgar Alan Poe, com tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

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One Response to “Edgar Alan Poe, o mestre do fantástico”

  1. Paula
    24/03/2009 at 18:34 #

    Confesso que sou grande admiradora de Poe e tenho várias colectâneas das suas obras, tanto em Português como em Inglês.
    Aconselho a leitura do conto “O Gato Preto”, que também é uma verdadeira pérola da literatura fantástica.

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