Um filme: Hotel Ruanda

Ontem revi um daqueles filmes que me incomodam no bom sentido. Porque há cinema que tem a pretensão de incomodar os espectadores, levando a sétima arte muito para além do óbvio divertimento de massas.

Hotel Ruanda mostra-nos o genocídio que aconteceu no Ruanda em 1994 e que resultou na morte extermínio de mais de 1 milhão de pessoas e lembra-nos que tudo isto se passou sem que nós, os ocidentais senhores do mundo, mexessemos um dedo, a não ser para mudar de canal quando, à hora de jantar, as imagens passavam nos telejornais.

Mas o mais revoltante ridículo desta situação é que ficamos a saber que a guerra entre os Hutu e os Tutsi, as duas “etnias” em confronto no Ruanda, tem origem na estupidez dos colonos belgas que desbravaram aquelas paragens.

Estes senhores acharam por bem dividir os ruandeses em dois grupos: os mais bonitos (com traços físicos mais parecidos aos europeus) para um lado – os Tutsi – e os mais feios (ou mais africanos) para o outro – os Hutu.

A cereja no topo do bolo foi a decisão que estabeleceu que os bonitos seriam superiores aos feios e o constante incentivo ao confronto entre os dois grupos.

Os ocidentais e desenvolvidos belgas levaram a cabo, durante anos e anos, esta espécie de política da estética, uma corrente que atingiu o seu auge no início da década de 60, quando o Ruanda alcançou a sua independência e os belgas, num último acto de paternalidade, entregaram o poder aos Tutsi.

Tantos anos deste ódio artifical resultaram em constantes guerras civis e culminaram no citado genocídio ignorado pelas potências ocidentais.

Hotel Ruanda situa-se na Primavera de 1994, quando o assassinato do presidente do Ruanda, o general Hutu Juvenal Habyarimana, desencadeou uma guerra civil sangrenta. Durante 4 meses, os extremistas Hutu mataram mais de um milhão de Tutsi.

A história centra-se então no Hutu Paul Rusesabagina (sublimemente interpretado por Don Cheadle), o gerente de um hotel de luxo que durante esses dias conseguiu salvar a vida de mais de mil pessoas, a maioria delas Tutsis.

Apesar da mensagem de tolerância e esperança e do final feliz possível no meio desta insanidade, aconselho-vos a que vejam o filme com outra perpectiva: somos, de facto, o animal mais estúpido que existe à face da terra.

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